O cheiro de pão na chapa escorre janela abaixo da padaria. É isso que me arranca da cama — não o barulho ensurdecedor dos carros lá fora.
Olho o celular. Sem reunião cedo… a cliente que costuma me mandar áudios de dois minutos às sete da manhã, antes da nossa reunião, cancelou com um emoji de sorriso amarelo.
Levantei rindo. Fui direto pro banho, só pensando naquele pão na chapa.
Abri o armário e peguei a primeira roupa que vi: uma saia plissada branca, camiseta larga cinza, e o meu ECCO Biom C-Trail, o tênis que estranhamente me dá uma sensação de segurança. É daqueles bem parecido com o que tá na moda atualmente, sabe? Meio sapatilha, mas com uma sola de trilha. Um híbrido que parece dizer: “tô pronta pra tudo, inclusive nada”, à la Chloë Sevigny pelas ruas de Nova York.
No café da esquina, a fila ainda tava curta. Pedi meu combo clássico: pão na chapa com café preto sem açúcar, e um copo de água. Peguei a mesinha na calçada, com vista para o caos da Augusta. Foi ali que o cara sentou na mesa ao lado.
Camisa branca, formal demais pro ambiente. Relógio prateado, pulseira grossa. Daqueles que puxam papo como se a gente estivesse esperando por isso – e torcendo para que não acontecesse.
— Diferentão esse aí, hein!? — disse ele, apontando para o meu tênis. — Parece que vai escalar ou, sei lá, dançar balé.
Dei uma risadinha educada, como quem fecha a porta sem bater. Mas ele tentou mais uma.
— Gosto quando a mulher mostra que é forte, sabe? Mas sem perder a leveza.
A frase ficou no ar. Engoli o café quente demais, de propósito, antes que a resposta que eu queria dar escapasse.
— Legal. — respondi, com um sorriso tão seco quanto o gole que ele deu quando percebeu que tinha falado demais.
No caminho até o IMS, parei numa banca. Uma capa me pegou: a modelo molhada, de salto agulha, em cima de uma pedra. Rigor, dor e glamour.
Dei risada sozinha. Me lembrei de uma vez em que fiquei três horas tentando achar um lugar seco pra pisar na beira de um cânion. Tava com uma bota caríssima e desconfortável. Me senti linda até torcer o tornozelo.
É por isso que eu amo o tênis que escolhi hoje. Se eu quiser sair daqui e ir direto pra trilha, eu consigo. Se quiser dançar ou, sei lá, dar um rolê pela cidade, tô pronta.
Agradeci o moço da banca com a cabeça e segui andando.
A Lô, a Ca e a Ma me esperavam na entrada. Logo ali, já pudemos ver a escultura da artista Zanele Muholi, a qual estávamos indo ver a exposição.
Subimos devagar, conversando.
A mostra da Zanele Muholi tinha uma luz que parecia silenciar o ambiente. As fotos, quase todas em preto e branco, pareciam respirar no escuro.
— Bonito, né? — a Lô sussurrou.
— Bonito e necessário. Dá vontade de ficar mais tempo em cada retrato, só pra entender o que eu mesma não tô sabendo nomear.
— Eu sempre volto diferente dessas exposições — ela disse.
— Eu volto mais eu. Parece que puxam um pedaço de dentro e mostram que ele pode existir fora também. — disse a Ma.
Em cartaz no IMS Paulista até 22 de junho de 2025, essa é a primeira retrospectiva no Brasil da artista e ativista visual sul-africana Zanele Muholi. A mostra reúne mais de 100 obras produzidas desde os anos 2000, além de trabalhos inéditos feitos no Brasil. Uma ode à beleza como ferramenta de resistência.
Retratos potentes que tensionam gênero, sexualidade e pertencimento – tudo com um olhar que diz mais do que mil palavras poderiam.
E foi ali, diante de uma foto que me encarava de volta, que percebi como tudo nela — o colar, a pintura no rosto, o corte preciso da luz — ajudava a compor algo maior. Não era só sobre beleza, era sobre presença. Sobre existir de um jeito inteiro, que não pede desculpa nem permissão.
Fiquei ali parada, tentando entender por que aquilo me atravessava tanto.
Talvez porque também passo dias tentando compor a mim mesma. Porque no fundo, cada escolha sobre o que vestimos, como nos movemos ou o que calamos é uma tentativa de dizer quem somos, mesmo quando nem nós mesmas sabemos o quê.
— Ei, Dara! Vamos! — exclama a Ma, inclinando a cabeça sentido à porta.
Eu tenho uma obra pra fiscalizar ainda hoje. Ah! Acho que não falei, né? Sou engenheira civil. Daqui, só preciso me trocar e ir fazer a visita técnica.
Enquanto desço as escadas do IMS, penso na foto que ficou comigo. Naquele olhar que parecia me lembrar que o corpo também é linguagem. Que estar ali, entre retratos tão fortes, com o tênis e o look que escolhi, também é um jeito de dizer que eu sou eu. Assim como a Lô, com seu look vermelho monocromático e argolas douradas, ou a Ca, que carrega a câmera como se fosse uma extensão da mão, ou a Ma, com seu moletom velho e uma calma que parece sempre saber onde pisa.
A rua me engole de volta com sua pressa habitual. Mas eu sigo no meu ritmo, inspirada pela exposição e firme no meu caminho. Bora pra cima. Que Deus nos abençõe — e me dê paciência no canteiro hoje.
Toque para saber mais sobre o ECCO biom C-Trail
O ECCO Biom C-Trail Leather Lace Up é um modelo que rompe com os padrões previsíveis do design feminino. Desenvolvido em colaboração com a estilista Natacha Ramsay-Levi, une o visual de uma sapatilha de balé à estrutura robusta de um tênis de trilha. Com solado preparado para todos os terrenos e amarração, o modelo traz uma silhueta marcante e funcional. É um tênis feminino que não se adapta às fórmulas masculinas que costumamos ver no footwear feminino.
Ao contrário, o Biom C-Trail Leather Lace-Up propõe uma nova lógica; funcional, ousada e livre de concessões estéticas.




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